Altamira recebe Formar Florestal 2015

Curso abrange educandos de novos territórios paraenses

Vinte e oito educandos participaram de 20 a 25 de fevereiro, em Altamira, do primeiro módulo do curso de formação inicial e continuada em Manejo Florestal Comunitário  -Formar Florestal 2015, realizado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) em parceria com Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA) - Campus Castanhal. O curso tem por objetivo realizar a formação de jovens e adultos em conhecimentos científicos e práticos por meio da socialização, disseminação e construção de conhecimentos a partir do contexto regional, visando o fortalecimento do tema do manejo florestal comunitário.

 Durante o primeiro módulo, além de debaterem o tema norteador do encontro formativo “Noções básicas sobre Governança Florestal”, os educandos conheceram a Usina Hidrelétrica (UHE) de Belo Monte e a realidade socioambiental de Altamira, com o intuito de refletir sobre o impacto dos grandes projetos no cenário amazônico.

Militância em Anapú

Um dos educandos é Fábio Lourenço, de 31 anos, que apesar da pouca idade já se mostra como um importante protagonista da história comunitária do seu território. Representante de Anapu, um dos municípios mais atingidos pela UHE de Belo Monte, a história de Lourenço com a militância começa ainda em 2005, quando conheceu a freira Dorothy Stang e o trabalho da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Após o assassinato de Stang, o educando mudou-se para o Projeto de Desenvolvimento Sustentável- PDS Esperança. “Com a realidade diária do território, conheci as dificuldades enfrentadas no assentamento, tanto as financeiras, quanto de saúde e infraestrutura”, afirmou.

Mesmo jovem, decidiu lançar-se sobre um novo desafio, a presidência da Associação do PDS. A partir de então iniciou uma luta contra um dos maiores problemas encontrados na comunidade. “A campanha para a desarticulação do PDS e a pressão externa de latifundiários e madeireiros para explorar os recursos naturais do território são os maiores problemas enfrentados por nós”, ressaltou.  

Ao conhecer o curso Formar Florestal, Lourenço viu  uma possibilidade de se munir de elementos que fortaleçam a sua luta. “Esse curso contribui para aprimorar nosso conhecimento e nos dá condições de lutar por nosso território de forma mais justa”, relata. 

 

Ampliação

Fábio Lourenço é mais um dos beneficiados com o aumento da abrangência territorial desta edição do Formar Florestal. “Ano passado tínhamos nove municípios representados no Formar, esse ano inserimos representantes de cinco novos municípios paraenses (Almeirim, Altamira, Novo Progresso, Placas e Anapu), o que permite a maior troca de experiência devido aos diferentes cenários dos territórios”, assegura Katiuscia Miranda, coordenadora adjunta do escritório do IEB, em Belém.

 “Não é todo dia que reunimos várias lideranças para compartilhar suas experiências. Não consigo nem imaginar os avanços que cada um terá em seus territórios por conta disso.” avalia Evawilma Souza, educanda de Rurópolis, que faz uma avaliação em consonância com a proposta do curso: construir uma visão ampla do desenvolvimento rural a partir das realidades vivenciadas sobre a Governança Florestal.

Belo Monte

O sol desponta sobre o extenso canteiro de obras, mais um dia de trabalho se inicia.... Escavadeiras, caminhões e operários, parecem miniaturas perto do empreendimento que alagará uma área de 516 quilômetros quadrados. Nesse cenário, o tom pastel do barro, e cinza do cimento, encobrem o verde cada vez mais tímido ao redor daquela que será a terceira maior hidroelétrica do mundo, Belo Monte. A barragem da UHE não separa apenas o rio Xingu, mas também separa os impactados de uma vida socioambientalmente mais justa.

Esse foi o pano de fundo do primeiro encontro do Formar Florestal 2015. Segundo Roberta Coelho, professora do IFPA-Castanhal e coordenadora acadêmica do Formar, o encontro iniciou em Altamira não por acaso, mas pelo fato de ser o local ideal para discutir Governança Florestal. “Aqui se reflete as mesmas problemáticas dos treze municípios de origem dos educandos”, comenta.

Inicialmente com o nome de Cararaô, a UHE de Belo Monte é um projeto arquitetado há mais de 30 anos, que em função da resistência da população da transamazônica foi adiado, entretanto não paralisado. Em 2010, o empreendimento saiu do papel para se tornar concreto, em todos os sentidos da palavra. Com 92% da obra em Vitória do Xingu e 8% em Altamira, o empreendimento atinge direta e indiretamente vários municípios da Bacia do Xingu, em especial os seus municípios sedes, além de Anapu, Senador José Porfírio e Brasil Novo.

Dentre os impactos sociais causados pelo empreendimento está o aumento da população, o crescimento da violência e a perda da identidade cultural de algumas comunidades tradicionais, segundo o Grupo de Estudos, Desenvolvimento e Dinâmicas Territoriais na Amazônia–GEDTAM da Universidade Federal do Pará-Campus Altamira.

Outro grande impacto é a mudança na dinâmica produtiva. “As comunidades que deixaram de fazer exploração madeireira voltaram a praticar a atividade, visto que para serem indenizadas pelo empreendimento não podiam modificar o seu lote. Desta forma, as famílias que não fazem roça, só conseguem dinheiro por meio da exploração das florestas ao entorno das comunidades”, explica o professor da Universidade Federal do Pará, José Herrera.

Coincidentemente, Altamira mostrou um aumento no desmatamento de 16 quilômetros quadrados em janeiro de 2015 em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo o boletim do SAD, divulgado pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (IMAZON).

A aproximação com as demais realidades paraenses e a construção conjunta da visão crítica para a governança dos territórios terá continuidade no segundo módulo do Formar. Com o tema Aspectos técnicos do Manejo Florestal Sustentável dos recursos madeireiros e não madeireiros em áreas comunitárias, o encontro ocorrerá entre os dias 23 a 28 de março, por meio de  uma jornada pedagógica, onde os educandos visitarão comunidades que praticam o Manejo Florestal Comunitário e participarão do intercâmbio de experiências na Reserva Extrativista Arapiuns, em Santarém e na Floresta Nacional do Tapajós, em Belterra.







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