Assentados discutem demandas em audiência pública em Humaitá

Documento produzido na audiência será encaminhado para a prefeitura do município
Foto: André Tomasi/IEB
Foto: André Tomasi/IEB

Por Letícia Freire

“O cansaço, o esgotamento, não tem água para beber. Você leva água para beber ou morre de sede.” O desabafo de Clarice Guedes, extrativista e moradora do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Realidade, em Humaitá, município do sul do Amazonas, retrata o sofrimento de centenas de pessoas que não têm acesso às estradas para vender os produtos agroextrativistas.

Elas percorrem o caminho de sua casa até a BR 319, rodovia mais próxima da região, seja à pé ou com um carrinho de mão para conseguir o sustento da família. Para tentar mudar essa situação, representantes da Comissão dos Assentados de Humaitá e Manicoré (COAS) se reuniram no dia 07 de dezembro em uma audiência pública realizada na câmara dos vereadores com representantes de diversos órgãos.

Foi a oportunidade de expor todos os problemas e dificuldades que os assentados enfrentam. As principais reinvindicações são nas áreas da saúde, educação, regularização fundiária e a construção de estradas. “A gente queria uma posição mais firme e isso não se concretizou. Então nós saímos praticamente do jeito que entramos”, contou Clarice.

A indignação de Clarice refletiu o sentimento geral da audiência pública. “A gente vem pra resolver as coisas e sai sem ter uma posição certa. Toda vez a gente vem nessas reuniões e temos custos. Nós precisamos que nossos assentados sejam vistos, acompanhados e os problemas sejam resolvidos porque ninguém aguenta ficar nessa situação, vindo e voltando sem ter uma resposta concreta,” desabafou Maria Silva, agroextrativista do Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Açuã.

A demanda mais urgente é a construção de estradas, mas em alguns projetos de assentamento não podem ser abertas grandes estradas por causa da definição do projeto como o Projeto de Assentamento Agroextrativista.

Para Clarice o primeiro passo é a construção das estradas. Seus três filhos estudam no município de Humaitá porque não tem condições de ir à pé para a escola da PSD Realidade. “Plantando milho, arroz, mandioca, você tira o dinheiro para botar gasolina na moto e levar as crianças no colégio. Com isso eles teriam aula na PDS Realidade por um bom tempo. Tudo isso pode acontecer”, acredita. A cada mês ela percorre um caminho de 20 quilômetros à pé com o paneiro nas costas e o peso de 8 quilos de um cacho de banana até chegar na rodovia.

Na visão de Wilson Dias, coordenador técnico da Associação dos Produtores Agroextrativistas do Vale do Índio (Aspravi) e morador do Projeto de Assentamento Agroextrativista Novo Oriente, a situação é caótica. “Atualmente toda a nossa produção é tirada no carrinho de mão, nós andamos em picadas. Tudo o que se produz e se extrai do extrativismo é retirado no ombro mesmo das pessoas e também no carrinho de mão quando dá para passar”, afirmou ele.

No final da audiência pública foi elaborado um documento que será enviado ao prefeito do município. Ele receberá a comissão dos assentados para direcionar as demandas para cada órgão responsável. “A partir daí vai ser possível fazer alguns encaminhamentos e esperamos que os anseios dessas pessoas sejam atendidos”, afirmou Wilson Dias, que também faz parte da Comissão dos Assentados de Humaitá e Manicoré (COAS).

 







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