Biomas: problema ou solução?

Nurit Bensusan explica em artigo o conceito de bioma e o contexto histórico

Por Nurit Bensusan

 

É possível que a máxima “dividir para governar” seja a melhor justificativa para a classificação da imensa biodiversidade brasileira em biomas. Talvez não, na acepção original de Maquiavel – um conselho para o príncipe fomentar dissensões para fortalecer seu poder –, mas na tentativa de transformar o ambiente em algo inteligível. A necessidade de dividir o território brasileiro em porções que o tornem mais governável vem de longe. As próprias capitanias hereditárias poderiam ser entendidas dessa maneira. Muitas divisões do território nacional foram propostas e, por fim, em 1942, foi adotada oficialmente a atual divisão em cinco grandes regiões geográficas.

A divisão em biomas também passou por várias transformações até se consolidar na divisão oficialmente aceita hoje, fruto de um trabalho do Ministério do Meio Ambiente, em parceria com o IBGE, e consolidado no mapa de biomas brasileiros lançado em 2004.

Mas... O que é um bioma?

A ideia de bioma está umbilicalmente ligada à da fitofisionomia e à da formação da vegetação. A fitofisionomia pode ser entendida como a impressão primeira causada pela vegetação. Humboldt teria sido o primeiro a utilizar tal expressão como uma característica morfológica da vegetação. Mais tarde, o conceito de “formação” começou a ser utilizado e no Congresso Internacional de Botânica de 1910, realizado em Bruxelas, estabeleceu-se que uma formação “se compõe de associações, que se diferenciam em sua composição florística, mas coincidem, em primeiro lugar, nas condições estacionais e, em segundo lugar, nas suas formas biológicas” (Coutinho, 2006). Ou seja, além da fitofisionomia, a ideia de domínio climático foi incorporada para compor esse novo conceito.

Nessa época, um dos conceitos mais populares ligados às comunidades vegetais era o do clímax, ou seja, a comunidade passaria por um processo de sucessão, em diversos estágios, que culminaria num clímax. Para Clements (1936), existiria apenas um estágio de clímax para cada comunidade e ele dependeria do clima. Weaver e Clements (1938) fazem a conexão entre a ideia de formação e o conceito de clímax, assinalando a importância do clima: “Cada formação é o tipo de vegetação mais elevado possível sob um determinado clima e essa relação torna o termo clímax especialmente significativo, pois se deriva da mesma raiz da palavra clima. A formação e o clímax são idênticos. Assim, uma comunidade pode ser chamada de formação ou, para enfatizar, uma formação clímax”. Com as controvérsias sobre o conceito de clímax de Clements, surgiram novas definições para o termo “formação”, sem mencionar o clímax, mas sempre ligadas à uma determinada área, a um clima definido e a uma fitofisionomia uniforme da vegetação. Por exemplo, para Colinvaux (1993), formação é a vegetação de uma grande região climática, reconhecida por uma forma de vida característica.

O termo bioma, que vem do grego (bio = vida + oma = grupo), teria sido proposto pelo próprio Clements, segundo alguns, ou por Shelford, de acordo com outros. A emergência do termo bioma revela o reconhecimento da importância dos animais para as comunidades. Enquanto “formação” abrangia apenas a vegetação, o bioma incluía os animais. Em 1949, Clements define bioma como uma comunidade de plantas e animais, em geral pertencentes a uma formação: uma comunidade biótica. Para Clements, o bioma se caracterizaria pela uniformidade fisionômica do clímax vegetal e pelos animais de maior relevância, possuindo uma constituição biótica característica.

Desde então, os conceitos se multiplicaram, mas podemos concordar com Coutinho (2006) e adotar o conceito de Walter (1986) que “considera como bioma uma área do espaço geográfico com dimensões até superiores a um milhão de quilômetros quadrados, representada por um tipo uniforme de ambiente, identificado e classificado de acordo com o macro-clima, a fitofisionomia (formação), o solo e a altitude, os principais elementos que caracterizam os diversos ambientes continentais.”

Paralelamente, os conceitos de ecossistemas também foram se transformando, desde sua primeira definição. Tansley, em 1935, concebeu o termo para designar um conjunto de elementos bióticos e abióticos, interligados e coordenados entre si, funcionando como uma estrutura organizada, das mais variadas formas e tamanhos, ocupando uma determinada área. Em um levantamento sobre o tema, Shrader-Frechette & McCoy (1993) compilaram conceitos como o de Odum (1963): “a comunidade e o ambiente não-vivo funcionando juntos”; o de McNaughton & Wolf (1979): “todos os organismos e seus ambientes num determinado local” e o de Lederer (1984): “todos os organismos, o ambiente que os circunda, e suas interações numa situação estável”, entre muitos outros. O que é possível notar é que não há uma diferença essencial entre os conceitos de ecossistemas e de biomas. Apesar dos conceitos de ecossistemas não mencionarem o clima, especificamente, eles tratam do “ambiente não-vivo”, ou do “ambiente que circunda” os organismos. A impressão que emerge é que a distinção entre biomas e ecossistemas estaria relacionada com a extensão: biomas são maiores que ecossistemas.

O artigo completo está disponível no livro “Os novos desafios da política ambiental brasileira”. A obra é uma coletânea de 17 especialistas de diversos setores (sociedade civil, órgãos internacionais e governos) e discute temas da atualidade e desafios para a Gestão Ambiental no Brasil, com temas direcionados às Florestas e ao Desmatamento; às Áreas Protegidas; ao Neodesenvolvimento; e ao Direito, à Justiça e à Política.







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