Breves recebe curso do projeto “Embarca Marajó”

Organização Social, com foco no associativismo e cooperativismo, foi discutida por 26 participantes de sete municípios do arquipélago paraense

O sol nascia resplandecente deixando bem visível as belezas do rio Parauaú, em Breves/Marajó. As embarcações chegavam ao Porto anunciando que era a parada final de alguns, mas para outros, como o jovem Márcio Ribeiro, líder comunitário do município de Melgaço, era só o começo.

Após enfrentar dois dias de viagem, a jornada de Márcio e mais 25 participantes, dentre comunitários e representantes instituições públicas de 7 municípios do Marajó, tinha um ponto de partida comum: o curso de Gestão dos Recursos Naturais, e um ponto de chegada determinado: o conhecimento.  Realizado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), no âmbito do projeto Embarca Marajó, e com apoio financeiro do Fundo Socioambiental Caixa, o primeiro módulo do curso discutiu a “Organização Social, com foco no Associativismo e Cooperativismo”, e teve como objetivo contribuir para o fortalecimento das organizações comunitárias na gestão sustentável dos recursos naturais no território marajoara. 

Troca de experiências

Com apenas 23 anos, o educando Márcio Ribeiro inicia sua vida na militância. Ele era a liderança comunitária mais jovem do curso de Gestão dos Recursos Naturais. Para Ribeiro, que é Secretário da Associação Flor do Lago, da comunidade Camuim (Melgaço), isso não é motivo de intimidação, mas orgulho. “É importante nós jovens participarmos da luta comunitária. Eu quero servir de exemplo para que a juventude da minha comunidade se engaje”, afirmou.

Ao lado de Márcio, participava do curso a presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Portel, Gracionice Costa, com mais de 15 anos de experiência no movimento social.  “Cresci na luta socioambiental, desde 1999 combato a exploração madeireira e a grilagem na minha comunidade. Muitas vezes, fui a única mulher a protestar, mas não desanimei”. A comunitária ainda pontua algumas das conquistas que fez parte: “Depois de muito lutar estamos em processo de regularização do Projeto Estadual de Assentamento Agroextrativista (PEAX) e há alguns anos o Governo concedeu cerca de 500 quilômetros quadrados de terra para os comunitários do meu município”, afirma a representante sindical referindo-se ao decreto 579, de 30 de outubro de 2012, no qual o Governo Federal destinou terras para o uso sustentável das comunidades rurais de Portel.

Para Raimunda Rodrigues, coordenadora de projetos do IEB, a troca de experiências enriquece a discussão e é o grande diferencial do curso. “Temos em um único lugar lideranças comunitárias com diferentes vivências, diferentes idades e regiões. Essa diversidade de visões é imprescindível para que otimizem a gestão de um meio ambiente que também é diverso”, assegura.

Coletividade

Com 42 mil quilômetros quadrados e 16 municípios, o Marajó abriga diferentes cenários em um mesmo território. Os marajoaras popularmente dividem o arquipélago fluviomarítimo em três partes: Marajó das águas, dos campos e das florestas. Segundo Alcir Borges, educador do curso e supervisor da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER) do Marajó, neste último cenário o grande problema tem sido a relação abusiva com as florestas e exploração madeireira, que tem aumentado o desmatamento na região. Segundo dados de dezembro de 2014 do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), um dos dez municípios mais desmatados nesse período foi Portel/Marajó, que apresentou 6,5 quilômetros quadrados de áreas devastadas.

Uma das alternativas para a gestão sustentável dos recursos naturais do Marajó é o Manejo Florestal Comunitário e Familiar (MFCF), pois gera renda a partir da floresta em pé, além de fortalecer a gestão territorial. O primeiro módulo do curso abordou a organização social (associativismo e cooperativismo) como uma iniciativa para a conquista de políticas públicas que servirão de suporte para a execução do MFCF.

Borges ressalta a relevância da organização de base para o contexto do Marajó e a necessidade da atuação coletiva contra os problemas socioambientais da região. “Falar de organização social não é só falar de associações ou cooperativas, mas falar de agrupamento e união de pessoas em prol da luta pelos seus direitos”, afirma.  

Exemplos dessa coletividade podem ser encontrados em sala de aula, como relata Edna Araújo, educanda e secretária do STTR de Breves.  “Um dos grandes problemas na minha comunidade é a exploração incorreta da floresta. Nós resolvemos nos unir, fizemos uma associação e trouxemos oficinas para os comunitários, para que possamos fazer a exploração de uma forma mais sustentável”.

As discussões feitas no decorrer do curso apontaram a organização social como peça chave para o controle social e a construção conjunta da governança florestal no território. “Esses comunitários nasceram e se criaram no Marajó, o domínio desses recursos naturais deve ser deles, mas só conseguirão o controle social se aprenderem a se unir. E esse curso é um degrau para alcançar essa meta”, afirma Borges.

No término dos três dias de curso, o educando Márcio Ribeiro avaliou positivamente a iniciativa: “Valeu a pena todo o esforço que fiz para chegar até aqui, saio de Breves sabendo que sozinho não posso fazer nada e que a mudança se faz por meio do coletivo”, observou. Mostrando comprometimento com a iniciativa, todos os educandos assinaram um termo de compromisso, no qual pactuaram a continuidade da participação nos três módulos do curso.

Próximo encontro

A construção conjunta da visão crítica do território marajoara terá continuidade no segundo módulo do Curso de Gestão dos Recursos Naturais, que tem previsão para ocorrer na segunda quinzena de agosto, com o tema “Monitoramento e Controle Ambiental”. O curso formativo é uma ação do projeto Embarca Marajó, que tem como objetivo implementar ações socioeconômicas e ambientais, visando o desenvolvimento sustentável do território marajoara, especialmente nos municípios onde trafega a Agência- Barco Ilha do Marajó.

Clique aqui e saiba mais sobre a história contada por Gracionice Costa acerca da regularização fundiária no município de Portel (PA). 







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