Formar Florestal certifica turma de 2015

Quarto módulo foi realizado no IFPA-Campus Castanhal (PA) onde se discutiu políticas públicas para a educação do campo.

“Eu sabia que não devia desistir”, disse com um sorriso no rosto o educando Antônio Andrade, momentos antes de ter em mãos o certificado do Formar Florestal 2015. Os educandos do curso estavam emocionados, alguns percorriam silentes o curto caminho que os leva até os certificados e outros esboçavam um tímido sorriso de dever cumprido. Talvez cada passo dado ao encontro da certificação lembrasse um caminho maior já percorrido para que aquele momento chegasse. A única certeza mutuamente repetida todas as vezes que pensavam em fraquejar era a mesma recorrentemente sussurrada por seu Antônio: “não posso desistir”. E eles não desistiram!

Após quatro módulos, realizados em um período de seis meses, o curso de Formação Inicial e Continuada em Manejo Florestal Comunitário- Formar Florestal 2015 finalizou suas atividades com a solenidade de certificação dos 23 educandos, provenientes de 13 municípios do oeste paraense. O evento aconteceu no último dia 28 de agosto, na sede do Instituto Federal de Educação do Pará (IFPA-Campus Castanhal), parceiro do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) na realização do programa formativo.

Oportunidade
Quando tinha apenas 11 anos de idade, Antônio Andrade, morador da região do Arapixuna em Santarém, esbarrou na falta de oportunidades. Para concluir o ensino fundamental, Antônio teria que frequentar a escola de uma comunidade maior, visto que no local onde morava a série ainda não era ofertada. Para isso, teria que percorrer 5 horas de viagem todos os dias. Em meio a desfavorável situação e a condição financeira ruim da família, Antônio decidiu parar os estudos para ajudar os pais no trabalho. “Naquela época o meu sonho era que os meus irmãos pudessem um dia se formar e terem a oportunidade que não tive”, afirma.

Hoje, mais de 30 anos depois, Antônio conseguiu ver os irmãos se formarem, mas ele parou de estudar há cerca de três décadas. “A minha história com a educação poderia ter parado por aí, mas depois de todo esse tempo eu decidi me dar uma nova oportunidade ao me inscrever no Formar Florestal. Estou motivado a continuar em busca de conhecimento”, relatou o educando.

A pouca escolaridade não impediu Antônio de incidir na militância, o que lhe permitiu adquirir um extenso conhecimento prático. Atualmente como Presidente da Federação das Associações da Gleba Lago Grande (Feagle), o objetivo do educando é repassar para as comunidades do seu território os conhecimentos do Formar e trabalhar com a possibilidade de execução de um plano de manejo madeireiro e/ou não madeireiro no local onde vive. As comunidades têm como uma das principais problemáticas o desmatamento provocado por uma mineradora, e são um recorte do contexto socioambiental da região oeste paraense, no qual a exploração não autorizada de madeira abrangeu uma área de 717 mil hectares no Pará entre 2007 e 2012, segundo o Greenpeace.

Educação do campo
Antecedendo a solenidade de certificação, a mesa “A importância da educação do campo e da formação profissional para as comunidades amazônicas” fez os educandos refletirem sobre a realidade da educação em cada território, além de discutirem a experiência do curso Formar Florestal para os novos processos formativos voltados ao tema.
Segundo Romier Souza, professor do IFPA-campus Castanhal, a discussão sobre educação do campo é recente enquanto política pública, apesar do debate em torno do tema datar desde os movimentos de alfabetização dos anos de 1950 e 1960. “O assunto ganhou força nos movimentos sociais no final da ditadura militar, mas a educação do campo enquanto política pública só ganha expressão no final dos anos de 1990, principalmente após o massacre de Eldorado dos Carajás em abril de 1996, quando 19 sem terras foram mortos. Após o período houve uma mobilização nacional para as políticas voltadas para o campo e o debate sobre educação do campo foi posto”, explica.

A discussão sobre o tema surge pautada na erradicação do analfabetismo no Brasil, visto que os maiores índices estão concentrados no espaço rural. Historicamente a educação sempre foi negada como direito no território brasileiro e na Amazônia essa realidade é ainda mais eminente. Romier ainda ressalta que nos últimos anos aconteceu o fechamento das escolas no campo [mais de 4000 só em 2014, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira-Inep], além do desenvolvimento da “política de nucleação”, que consiste na disponibilização de lanchas e ônibus para levarem os jovens das suas comunidades para núcleos urbanos ou comunidades maiores. Neste contexto, os movimentos sociais têm lutado pela educação como direito de estudar no seu próprio território.

A educanda do Formar Florestal Idenilza Cunha, do município de Juruti, conhece muito bem essa realidade. Idenilza relata que a comunidade tradicional da qual faz parte está sendo esvaziada, dentre outros motivos, devido a busca por mais oportunidades educacionais. “Se tivéssemos apoio municipal e estadual, nós teríamos acesso à educação do campo e não estaríamos saindo da comunidade para adquirirmos educação na cidade. Até porque isso nos causa um grande transtorno e a perda da nossa identidade”, lamenta.

Um novo caminho
Segundo Manuel Amaral, coordenador regional do IEB Belém, o Formar Florestal surge nesse contexto como um processo de formação diferenciada para jovens oriundos de comunidades rurais, respeitando a especificidade deste tipo de educação por meio da metodologia da alternância pedagógica, que divide o aprendizado em tempo escola, que é o espaço de formação presencial onde os educadores discutem temáticas relevantes ao contexto local dos educandos, em especial para a o manejo florestal comunitário; e tempo comunidade, que é o momento dedicado a qualificação dos (as) os (as) educandos (as) nas suas comunidades, através de intervenções práticas nas suas realidades planejadas durante o tempo escola.

A parceria entre IEB e IFPA - campus Castanhal e a discussão sobre o desenvolvimento de cursos com a temática do Manejo Florestal Comunitário começou no final dos anos 1990. Após elaborar programas formativos anteriores baseados no tema, surge em 2014 o Formar Florestal. Para Amaral, a importância de debater o manejo florestal no curso é fundamental. “Em geral, os cursos relacionados às ciências florestais na Amazônia são importados de contextos de florestas temperadas, então não há uma conexão com a realidade da região. O Formar Florestal busca exatamente construir um referencial a partir dos sujeitos da Amazônia que vivem no campo, das lideranças, das famílias e das comunidades que estão desenvolvendo a prática no território”.

Adriana Souza, educanda do Formar Florestal e comunitária do município de Trairão/PA, aponta a heterogeneidade de conhecimentos como o diferencial do curso. “O Formar dá uma visão mais ampla da realidade. Aqui existe uma junção dos conhecimentos de todos, sejam práticos ou teóricos. Isso acaba fazendo com que a gente amplie o modo de ver o nosso próprio território”, afirma.

Após duas edições, o curso já certificou 50 educandos. Segundo Roberta Coelho, coordenadora acadêmica do Formar Florestal, pelo IFPA-Campus Castanhal, a iniciativa já pode enumerar os resultados. “Identificamos educandos do Formar assumindo lideranças dentro das suas organizações. Após concluirem o curso , eles têm desenvolvido a experiência adquirida no programa formativo em seus projetos de desenvolvimento locais e articulam ações para a melhoria de suas organizações”, relata. Os resultados desta iniciativa foram sistematizados e estão expressos no livro “Formar Florestal: Lições e aprendizados”, lançado pelo selo mil folhas do IEB.

Exército
No findar da segunda edição do Formar Florestal e prestes a receber o certificado de conclusão do curso, a educanda Elicelete Santana, do município de Placas/PA, traduz o sentimento dos demais colegas de turma. “No decorrer desses meses tive a honra de representar a minha comunidade no Formar Florestal, trouxe ela comigo em cada desafio enfrentado e hoje finalizo o curso com o sentimento de dever cumprido, mas com a consciência de que a luta está apenas começando”, disse emocionada.

Marcos Silva, assistente de projetos do IEB, reforça as palavras do presidente do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém, Manoel Edivaldo “Peixe”, para traduzir o momento. “Acabamos de formar um exército de lideranças que estará espalhado em pontos críticos no oeste paraense, eles são capazes de refletir o contexto do manejo e, acima de tudo, as consequências disso para a governança florestal no seu território”, finalizou.







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