Formar Florestal discute gestão de empreendimentos comunitários

Terceiro módulo do curso foi realizado em Itaituba, PA

De 05 a 10 de agosto de 2014, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA- campus Castanhal) - promoveu em Itaituba o terceiro módulo do curso Formar Florestal, que teve como tema a “Gestão de Empreendimentos Comunitários”.  Um dos objetivos do encontro foi problematizar e refletir os principais aspectos da gestão de empreendimentos comunitários, considerando elementos de organização social e economia solidária. Participaram da formação vinte lideranças, provenientes de comunidades dos municípios de Santarém, Belterra, Rurópolis, Itaituba, Porto de Moz, Juruti e Trairão. O curso tem o apoio do Fundo Vale e Mac Foundation.

Descontração com Responsabilidade

“Diferente do que vemos em muitas locais, ele deixou a presidência da cooperativa com a cabeça erguida”, compartilhou a liderança de Santarém, Anete Silva, que usando uma peruca vermelha, relembrou as lições do dia anterior quando o ex-presidente da Cooperativa Mista Flona Tapajós, Sérgio Pimentel, contou os desafios da gestão de uma entidade comunitária. O adereço chamou a atenção. Curupira! Cochichavam alguns dos educandos na sala. Mas todos estavam atentos a fala de Anete que se mantinha segura aos seus posicionamentos. “A ideia de trazer fantasias busca deixá-los menos tímidos, durante os diálogos”, explica a consultora do IEB, Regina Oliveira, uma das facilitadoras do Formar Florestal. “Você se concentra nos formadores, sem deixar de lado os momentos de descontração”, completa Oliveira.

Encarar temas densos da terceira etapa do Formar Florestal foi mais fácil com um clima descontraído. A consultora do IEB, Maria Antônia, trouxe para os educandos as minúcias da legislação e do sistema contábil que rege as associações e cooperativas. Embora o assunto não fosse um dos mais fáceis de entender, o diálogo buscou dar uma noção prática ao tema. “A maioria deles (educandos) estão em territórios que podem ser concessões florestais, e as associações são as entidades concessionárias dessas áreas que tem a possibilidade de trabalhar o MFCF. O cooperativismo, caso eles se organizem para tal, pode dar condições para o processo de venda desses recursos naturais, seja ele madeireiro ou não madeiro”, explica Antônia ressaltando que o associativismo ainda é o mecanismo de luta e de acesso à políticas públicas das comunidades e o cooperativismo é uma alternativa de acesso ao mercado.

Cooperativismo e cooperação  

Outro tema de diálogo foi a economia solidária, facilitado pelo professor João Cláudio Arroyo. O passo inicial do educador foi mostrar como a economia faz parte da vida das pessoas. “Ela [economia] começa na própria comunidade, no consumo da própria comunidade”, destacou João. O tema foi aprofundado, mostrando que o processo de manejo envolve pessoas e é necessário engaja-las para ter o sucesso nos empreendimentos econômicos. “Nós estamos dando parâmetros para que os educandos distingam entre cooperativa e cooperação.  Eles precisam buscar trabalhar cooperativas que tenham o suporte da cultura da cooperação”, relata Arroyo sobre o desafio de se constituir uma rede baseada na economia solidária.

As noções de economia e de legislação dialogadas por Maria Antônia e Cláudio Arroyo também foram acompanhadas por uma reflexão crítica sobre o debate do aproveitamento madeireiro na Amazônia.  O engenheiro florestal, Carlos Augusto Ramos, fez essa análise destacando a interdisciplinaridade do tema atualmente. “Nós acreditamos que à medida que os jovens forem se inteirando sobre os processos de manejo, eles podem melhorar sua condição de vida nas comunidades. Mas dessa vez com uma abordagem mais diversificada – algo que faltou aprofundar nos anos 1990 e 2000. Eles podem fazer um debate do manejo ligado à agricultura familiar e à formação no campo, temas que hoje são mais fáceis de ligar com a temática madeireira”, explica Carlos.

Fechando os diálogos, Regina Oliveira, consultora do IEB, apresentou aos educandos as diferentes ferramentas de mapeamento participativo de forma a instrumentalizar as lideranças em suas ações de mobilização e organização social. Uma das ênfases dadas durante o diálogo foi a discussão em torno de gênero, reforçando a importância do papel da mulher na comunidade.

Sobre a terceira etapa, os educandos conseguem assimilar a metodologia.  “Cada dia é uma novidade. Os professores são entusiastas da formação de lideranças e eles não somente buscam formar, mas provocar nossa curiosidade para buscar novas técnicas e outros aprendizados”, relata Denis Oliveira, da comunidade Mari Marituba, em Santarém.

Potencial Florestal e Concessões

No oeste paraense, estima-se que há 90 quilômetros quadrados de floresta em pé.  Desse total pelo menos 60% está sob domínio de comunidades. Itaituba representa um grande potencial de recursos florestais na região, tendo em seu território assentamentos da reforma agrária e unidades de conservação. Um das possibilidades de aproveitamento desses recursos é por meio das concessões florestais, quando governo concede o direito de praticar o manejo florestal sustentável para a exploração de produtos e serviços.

A escolha de quem irá manejar a área é feita por meio de licitação. As florestas nacionais (Flonas) são passiveis de concessões. O município onde ocorreu o terceiro módulo do curso possui três Flonas: Itaituba I e II e Flona Trairão. As comunidades que vivem nas áreas de concessão podem realizar o manejo ou serem ressarcidas pelo o uso das áreas exploradas. Em ambos os casos elas precisam ter a compreensão de como efetuar a gestão do território e exercer o controle social sobre as decisões relacionados ao aproveitamento econômico dos recursos naturais.

O Formar Florestal contribui para esclarecer os processos que envolvem a realidade dos participantes.  “A discussão sobre a concessão florestal, muito presente aqui nos municípios de Itaituba e Trairão, por exemplo, envolve as relações e condições estabelecidas para um melhor controle sobre a exploração florestal nos territórios onde as comunidades vivem. Porém, para que as populações locais atuem na gestão é necessário que se organizem socialmente e se apropriem dos temas relacionados à conjuntura política e socioambiental, por meio de ações de formação, e é isso que o Formar Florestal proporciona.”, afirma Katiuscia Miranda, coordenadora de projetos do IEB.








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