Formar Florestal discute gestão de empreendimentos comunitários

Ativismo socioambiental também foi tema do módulo

“Desenvolvimento é mudar a nossa concepção e prática sobre a natureza. Hoje eu sei que ele só acontece se for sustentável e coletivo”, afirma Magnandes Cardoso, educando do Formar Florestal e comunitário de Morada Nova, no município de Almeirim (PA). Esse foi um dos aprendizados compartilhados por 24 lideranças comunitárias, de 12 municípios do Pará que participaram do terceiro módulo do Formar Florestal, realizado entre os dias 29 de maio a 07 de junho no município de Itaituba.

Essa terceira edição abordou o tema “Organização social e gestão de empreendimentos comunitários”, e discutiu os aspectos e a importância dos movimentos sociais nessa modalidade de gestão em rede, além de refletir sobre o papel da comunicação neste contexto.

Economia solidária e controle social 

A educanda do Formar Florestal, Sandra Rodrigues, passou a residir na comunidade Baixão Bonito, dentro do Projeto de Assentamento Ipiranga, localizado no município de Itaituba, em 2006. Ela reflete que sempre se manteve alheia as discussões da Associação de Produtores e Produtoras Rurais da sua localidade. Porém em 2012 esse cenário mudou. Naquele ano a Associação foi ameaçada de ser desativada, devido à ausência de pessoas para geri-la. Mesmo sem experiência na área, Sandra tomou para si a responsabilidade e hoje é a presidente da associação.

A líder comunitária ainda relata que um dos frequentes problemas enfrentados no território é a pressão de madeireiros e fazendeiros, que se apossam ilegalmente das terras comunitárias. Sandra encontrou no Formar Florestal uma alternativa de resistência a essa ameaça. “Vi no curso uma oportunidade de gerenciar melhor a minha associação e aprendi que se nos organizarmos socialmente podemos ter o controle social do território e combater esse problema socioambiental”, afirmou.

A comunidade de Sandra é produtora de frutas, mas a educanda alega que essa produção sempre se deu de forma individual, o que acarreta grandes gastos e pouco lucro para os agricultores. “Nesse módulo de gestão de empreendimentos comunitários descobri que seremos mais beneficiados se trabalharmos coletivamente e pretendo passar isso para os meus companheiros”, assegurou.

O educador convidado do Formar, Adebaro Reis, apresentou aos educandos a gestão de empreendimentos a partir da economia solidária, entendida como um modo coletivo de produção, venda e compra, em que não há “lucro” e sim sobras que são divididas entre os que praticam esta economia em um processo que gera relações vantajosas a todos os envolvidos, ou seja, um cenário onde não há exploradores e explorados. Para Roberta Coelho, professora do IFPA-campus Castanhal, a prática da econômica solidária também contribui para a sustentabilidade dos territórios, quando se alia, por exemplo, ao Manejo Florestal Comunitário (MFC), que busca associar rentabilidade à conservação dos recursos naturais.

Para a coordenadora do IEB, Katiuscia Miranda, a economia solidária é uma alternativa para as comunidades se organizarem socialmente. “Elas podem compreender como efetuar a gestão do território e exercer o controle social sobre as decisões relacionadas ao aproveitamento econômico dos recursos naturais”, explica Miranda. 

Por uma barragem de vida ...

O terceiro módulo do Formar Florestal também teve a participação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que discutiu dentre outros assuntos o atual cenário que tem ameaçado a região: a construção de um Complexo Hidroelétrico no Tapajós. O Projeto de Aceleração do Crescimento (PAC) e o plano Iniciativa de Interregional Sul América (IIRSA) têm como frente impulsionar a construção do Complexo, que será formado por cinco grandes hidrelétricas previstas para a Bacia do rio Tapajós (rios Tapajós e Jamanxin). O grande projeto motivará outras mudanças na região, como a construção de rodovias, ferrovias e portos em benefício dos grandes grupos econômicos.

O complexo terá capacidade para 12,5 mil megawhatts (MW). Segundo estudos de visibilidade técnica e econômica do Governo Federal, toda essa força deverá inundar mais de 722 quilômetros quadrados (equivalentes a 66 mil campos de futebol) envolvendo unidades de conservação (Parque Nacional da Amazônia), terras indígenas (Munduruku), comunidades ribeirinhos, áreas de colonização e terras públicas em processo de regularização fundiária. As áreas afetadas são cortadas pela BR-163, uma das regiões onde mais se concentrou o desmatamento nos últimos anos.

A partir desse cenário, os educandos aproveitaram o debate sobre comunicação como ativismo socioambiental para criar a campanha “Amazônia Viva”. Usando vídeos nas redes sociais, os educandos protestaram contra o modelo econômico imposto à Amazônia e cobraram um modelo de produção sustentável. “Uma barragem de vida pelos povos, rios e florestas”, diziam os cartazes da campanha.

Ainda durante este módulo, os educandos tiveram participação ao vivo nas rádios da região, onde expuseram as dificuldades encontradas nas suas comunidades e os impactos sofridos diante da chegada dos grandes projetos, que ameaçam a biodiversidade de seus territórios.

O debate sobre outras realidades amazônicas e a construção conjunta de uma visão crítica do território terá continuidade no quarto e último módulo do Formar Florestal 2015, que tem previsão para ocorrer de 23 a 29 de agosto, em Belém, com o tema “Políticas Públicas para a gestão dos recursos Naturais”.  O programa formativo é uma realização do IEB em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA ) - Campus Castanhal, com apoio do Fundo Vale e MAC Foundation. 

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