Formar para Formar: unindo forças para multiplicar conhecimentos

Gestores indígenas e não indígenas relatam suas impressões após o término do curso

Para complementar a formação de multiplicadores de saberes ligados à implementação da PNGATI, o IEB promoveu o Formar Para Formar: Processos Participativos para Formação em PNGATI. Foi um curso intensivo, realizado dos dias 15 a 30 de março, que contemplou as três regiões da Amazônia Brasileira (Rondônia, Roraima e Sul do Amazonas) e o Bioma Mata Atlântica Sul-Sudeste e Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo. A intenção foi proporcionar a troca de experiências entre os participantes.

O objetivo foi favorecer a qualificação dos gestores indígenas e não-indígenas, transformando-os em multiplicadores. Segundo a indigenista da Fundação Nacional do Índio (Funai) da central regional de Minas Gerais e Espírito Santo, Caroline Willrich, o curso foi “mesmo uma conclusão do Formar PNGATI, trouxe mais ferramentas e uma luz maior do que a gente aprendeu anteriormente”. O Formar para Formar contou com 40 alunos e foi dividido em três blocos temáticos. O primeiro denominado “Processos Participativos, formação e povos indígenas – o que essa mistura dá?” e os dois últimos trataram de técnicas e métodos participativos em contextos de formação.

Composto por diversas palestras, o curso tratou de temas como participação social, educação indígena formal, educação ambiental, o poder moderador, processos participativos, democracia e políticas públicas, sempre tendo em vista o atual cenário relacionado aos direitos indígenas. Taís de Azevedo, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em Boca do Acre (AM), ressaltou que todas as palestras foram importantes porque se complementaram. “As da Sônia Guajajara foram interessantes, em particular, porque elas trouxeram a conjuntura atual, o que está acontecendo em ambientes que não temos tanto acesso”.

Outra palestra que chamou a atenção dos cursistas foi a do representante do Movimento dos Sem Terra (MST), Erivan Hilário, que mostrou uma nova forma de educação popular e independente. “Ele conseguiu passar uma ideia de formação política e de educação que tem tudo a ver com o momento que o movimento indígena está passando”, salientou Caroline Willrich.

Além das palestras, o curso apresentou um vídeo, intitulado “Índio cidadão”, de Rodrigo Cerqueira e o documentário do diretor Celso Maldos “Mineração e Desenvolvimento em Terras Indígenas?”, para uma sessão comentada. Outra dinâmica de destaque foi a feira de talentos que “veio para despertar o que já temos dentro de nós, para colocarmos para fora o que sabemos fazer em nossas aldeias, junto com o nosso povo”, afirmou Telma Taurepang, representante do Movimento de Mulheres Indígenas do Conselho Indígena de Roraima (CIR).

Segundo Telma, durante o curso os diferentes conhecimentos foram se somando e trazendo mais subsídios aos indígenas sobre o que é a PNGATI. “Os  instrutores nos deram uma forma de pensar mais técnica, mas de modo que o técnico casou com a maneira tradicional com que nós temos trabalhado dentro das nossas comunidades, das nossas regiões, diretamente com os povos indígenas”, complementou.

Com conteúdo e cronograma extensos, o curso foi relevante para gestores indígenas e não-indígenas ampliarem as suas ferramentas para multiplicar os seus conhecimentos sobre a PNGATI. De acordo com Mário Moreira, guarani e representante da Articulação dos Povos Indígenas da região Sul (Arpinsul), “muitos de nós indígenas procurávamos por uma capacitação para perceber qual o papel do gestor indígena para implantar e ampliar a PNGATI. Foi muito interessante e onde a gente viu que devemos ter responsabilidade e coerência com todas as situações locais, regionais e nacionais para podermos realizar na prática o que os nossos povos indígenas exigem.”

Já Anderson Vasconcelos, da Frente de Proteção dos Yanomamis e Ye’Kuanas (Funai), o curso “é importante para qualquer gestor que tem interesse em executar uma política indigenista de fato, que tenha ações concretas, para saber exatamente quais são as ferramentas que vai utilizar nas implementações dos planos, ao escutar a comunidade, em tudo que diz respeito a uma pesquisa, a um levantamento participativo.”

O gestor ainda viu como positiva a troca de experiências com os cursistas de outras regiões. “Como a gente tem um trabalho em regiões grandes, você acaba focado nelas ou nos públicos que estão ali interagindo. Quando você vem para um curso como esse onde você tem um momento para escutar e trocar experiências com parentes que já têm muito tempo de contato, já têm muitas interferências ou que já têm o seu território destruído, entre outras coisas negativas, você acaba abrindo a sua visão para as futuras ameaças em relação às terras e ao ambiente. Você acaba guardando essa bagagem para executar na sua região.”

Esse intercâmbio também revelou que os povos indígenas das diferentes regiões compartilham muitas questões. “Nós temos culturas diferentes, mas nessa troca de experiências que tivemos no curso, percebi que os problemas que nós enfrentamos são comuns, iguais, principalmente essa luta pela terra. A conclusão a que eu chego é que os povos indígenas têm uma luta em comum, pela terra. Mesmo os povos que já tem as suas demarcadas, não quer dizer que esteja tudo bem”, falou o representante da Associação do Povo Indígena Zoró (APIZ), Thiago Zoró.

Com o encerramento do Formar para Formar, ficou o desafio, para seus participantes, de dar continuidade aos processos de formação e multiplicar os conhecimentos adquiridos. “Esse é o meu desafio e se ele foi posto, cabe a mim cumpri-lo até o fim. É um momento ímpar, a Conferência de Política Indigenista está aí, está nas bases e nós vamos participar, entrar focados na PNGATI. Então, acho que isso será uma forma de fortalecer e de incentivar esse desafio, inclusive de dividir um pouco esses conhecimentos e ampliar tudo o que se deu nesses 15 dias de curso”, resumiu o cacique Nathan Potiguara, representante da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME). Cleudo Tenharin, cursista do Sul do Amazonas, ressaltou, porém, que “apesar de sermos multiplicadores, é preciso ter mais indígenas participando, para facilitar e distribuir o conhecimento de forma mais rápida nas regiões”.

Esse desafio encoraja Taís de Azevedo, do ICMBIO, que trabalha numa região onde os gestores públicos ainda têm muito preconceito contra as comunidades indígenas. “Me vejo esperançosa de tentar sensibilizar as comunidades, tanto a ribeirinha quanto as indígenas da região que ainda não participaram, a aderirem a esse processo da PNGATI”, afirmou.

O balanço que o IEB faz do Formar para Formar é, nas palavras de Andréia Bavaresco, coordenadora de projetos, de “que foi um curso intensivo, muito puxado, mas que criou uma rede de gestores e formadores interessados inclusive em continuar mergulhando nessa discussão de metodologias participativas. Independente do tema, se foi PNGATI ou saúde indígena, a gente conseguiu dar para eles um conjunto de ferramentas, possibilitando que eles como gestores pudessem ir lá e ter a análise crítica de escolher a mais apropriada. Foi um processo que ficou para mim como o melhor resultado do curso.” Andréia ainda refletiu que os debates nesses 15 dias foram riquíssimos e para os funcionários do instituto foi interessante refletir sobre as suas próprias práticas como educadores do processo de ensino e aprendizagem.







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