Intercâmbio na Resex Verde Para Sempre

Comunitários superaram conflitos fundiários, mas convivem com a burocracia pra realizar o manejo florestal.

Estudantes do Instituto Federal do Pará (IFPA) participaram na última semana de um intercâmbio na Reserva Extrativista Verde Para Sempre, Porto de Moz (PA). Além de visitarem uma comunidade precursora em Manejo Florestal Comunitário Familiar (MFCF), eles trocaram experiências com outras duas que possuem plano de manejo em andamento. A proposta da atividade, realizada pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), foi aprender na prática como o MFCF contribui para a redução do desmatamento e garante uma melhor gestão dos recursos naturais.

As águas cristalinas do rio Acaraí recebiam os últimos raios de sol da tarde quando o barco verde e branco ancorou na Reserva Extrativista Verde Para Sempre, no município de Porto de Moz (PA). Após mais de 40 horas de viagem, sob fogos de artifício e olhares atentos, 23 estudantes do curso técnico de Floresta do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA) - Campus Castanhal, chegaram à comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do Arimum.

O educando Cley Nascimento foi um dos que se integrou mais rápido à realidade. No mesmo dia em que chegou jogou uma partida de futebol e no dia seguinte já estava pescando e pilotando rabeta com os moradores. “É uma oportunidade única e a gente tem que aproveitar. Se envolver com a comunidade, com a natureza. O intercâmbio traz um aprendizado muito grande, a gente pode viver e ver de perto as dificuldades que as pessoas enfrentam”, afirma o estudante, filho de ribeirinhos, criado na divisa do Pará com o Amapá.

Cley sabe muito bem o que a falta de planejamento na extração dos recursos naturais pode causar. Devido à exploração desregulada, a comunidade em que vivia deixou de existir: “Acabou tudo. Ninguém tinha mais como viver, então foram saindo aos poucos. Até que não sobrou mais ninguém morando lá”, conta.

Diferente da comunidade de Cley, a comunidade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do Arimum teve um destino diferente. Graças à criação da reserva Verde Para Sempre, Arimum pode se manter viva e hoje desenvolve um plano de manejo florestal comunitário.

Mestre em agriculturas familiares e especialista e ecoturismo, Acácio de Melo acredita que “conhecer a realidade do local, leva os alunos a conhecerem como as coisas funcionando de fato. Falar com as pessoas é muito diferente do que só discutir em sala de aula”, afirma o professor do IFPA que acompanhou os alunos durante o intercâmbio, que ocorreu de 22 a 30 de agosto.

No primeiro dia os educandos (as) participaram de uma roda de conversa sobre o histórico da comunidade do Arimum. No outro dia, visitaram uma área base do manejo, onde estão localizados os alojamentos, casa de motor e galpões. No terceiro dia visitaram as duas últimas áreas exploradas. “Dá para acreditar que por aqui já passou um trator?”, pergunta o presidente da associação Arimum, Genésio da Silva. Ele aponta para um pequeno caminho de mata quase fechada, por onde eram retiradas as toras exploradas durante a primeira produção da comunidade. Após conhecerem Arimum, os alunos visitaram as comunidades de “Por ti meus Deus” e “Paraíso”, ambas protocolaram o plano de manejo no início do ano no IBAMA e agora aguardam autorização para exploração.

O intercâmbio, realizado pelo IEB em parceria com o IFPA - Campus Castanhal, ocorre desde 2009.  A atividade já levou estudantes para conhecer experiências de Manejo Florestal Comunitário nas regiões Sul, Baixo Amazonas e Oeste paraense.   “A ideia do intercambio é mostrar aos alunos que é possível conviver com a floresta deixando ela em pé e preservando o máximo possível”, explica Marcos Silva, assistente de projetos do IEB. Antes do embarque para Porto de Moz os educandos passaram por um momento mais teórico. Marcos e a coordenadora de projetos, Wandreia Baitz, ministraram uma semana de aulas sobre Manejo Florestal Comunitário e Familiar – uma das disciplinas do Curso Técnico de Floresta do IFPA. Em sala, os educandos abordaram os desafios para implantação do manejo, as formas de organização comunitária e aspectos mercadológicos do setor florestal.

Demarcação combate o desmatamento

A criação da Resex foi extremamente estratégica no combate ao desmatamento que se alastrava freneticamente pela região com aberturas de estradas ilegais. A proposta acirrou os conflitos entre ambientalistas e comunitários de um lado e fazendeiros e governantes do outro. Em 2002, o então governador do Pará, declarou a jornais locais e nacionais que a reserva inviabilizaria o desenvolvimento do estado. A demarcação foi então adiada em dois anos, sendo criada apenas em 2004. A demarcação fez com que os índices de desmatamento caíssem consideravelmente. Segundo dados do Greenpeace, em 2003, a taxa era de área devastada era 1413,61 Km². Desde então, os números foram caindo chegando a 86,96 Km² e 53,40 Km² em 2005 e 2006, respectivamente. “Para demarcar a terra a gente teve que enfrentar muita coisa. Não foi fácil, mas a gente conseguiu. Depois que chegou a reserva os fazendeiros saíram, os pistoleiros saíram e a gente pode trabalhar direito”, conta Genésio, representante da comunidade pioneira na utilização de plano de manejo.

O pioneirismo da comunidade do Arimum e os percalços burocráticos

A comunidade do Arimum existe desde meados de 1970 e foi praticamente fundada por Maria Luiza Ribeiro. Dona de olhos pequenos e rosto enrugado, a “Velha Luiza”, como é conhecida, é parteira. Já “pegou” mais de 200 crianças e alfabetizou grande parte dos moradores da comunidade do Arimum. “Aos poucos as pessoas foram chegando para aprender a ler e escrever com cadernos de papel de saco de arroz e feijão. Assim a comunidade foi surgindo”, conta Dona Luiza.

Em 2006 a comunidade conseguiu aprovação do Instituto de Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais (IBAMA) para executar o plano de MFCF. Mais de 4 mil  hectares de floresta seriam exploradas de forma sustentável em 30 anos, por meio da associação do Arimum, existente desde 1996. A entidade comunitária agora busca se tornar cooperativa e conseguir o selo FSC, que indica que a madeira extraída é de qualidade e tem origem confiável.

Apesar dos avanços, a comunidade enfrenta dificuldades em relação às autorizações anuais de exploração, emitidas pelo IBAMA. O primeiro Plano de Operação Anual (POA) da comunidade foi aprovado em 2006. De lá para cá já eram para ter sido realizado cerca oito produções anuais, porém foram feitas apenas três. Protocolado em março deste ano, o POA da comunidade Arimum foi aprovado na última semana de agosto. O atraso dificultou a produção, devido o inverno amazônico, quando as chuvas na região Norte se tornam mais intensas. “Todo ano é essa peleja. Já era para estar fazendo a estrada. Você protocola, passa o ano todinho e o IBAMA demora demais para dar autorização. Estamos tirando uma produção de um ano em dois”, lamenta Genésio Ribeiro.

 A demora burocracia para emissão das autorizações faz com que muitas comunidades não ingressem na legalidade. Atualmente, existem cerca de 120 comunidades na região. Destas, sete possuem plano de manejo protocolado no IBAMA e somente a Arimum e a Juçara já realizaram manejo florestal comunitário.







Comentários