IEB socializa experiências de fundos socioambientais no Congresso Brasileiro de Agroecologia

Evento foi realizado em Belém (PA) entre os dias 28 de setembro e 01 de outubro

“Eu cresci e me criei no Rio Araguari e ninguém sabia que a gente estava lá, hoje eu posso falar bem alto: eu existo!”, disse Arlete Leal, representante da Associação dos Agroextrativistas Ribeirinhos do Rio Araguari - Bom Sucesso, no Amapá.  Ao reafirmar a identidade comunitária talvez Arlete seja porta-voz de muitos ribeirinhos, assentados, quilombolas e outros povos amazônidas, que muitas vezes não têm nome, não têm rosto e nem vez ou voz diante do macro modelo de desenvolvimento imposto no Brasil. 

Com o intuito de oportunizar a troca de experiências e fazer conhecidas as práticas produtivas desses povos, o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) realizou a oficina “A experiência de comunidades amazônicas com fundos socioambientais: lições aprendidas”.  A iniciativa aconteceu no dia 29 de setembro, durante o IX Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), em Belém/PA, e contou com a participação de representantes de organizações comunitárias beneficiárias dos fundos socioambientais desenvolvidos pelo IEB em São Félix do Xingu e Amapá e o fundo comunitário da gleba Acuti Pereira, no Marajó.

Resgate Cultural

 Ainda na infância, Arlete Leal viu a avó repetir uma prática herdada de seus ancestrais: o beneficiamento da andiroba. Após a morte da avó, a prática se tornou apenas uma vaga lembrança das raízes culturais da comunitária.

Dois anos após a criação da Associação Bom Sucesso e da articulação de um grupo de parcerias articuladas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a visão sobre sua realidade começou a mudar e novas oportunidades apareceram. “Depois que criamos a associação, o IEB chegou até nós e criou um crédito que nós mesmos podemos acessar” afirma Arlete se referindo ao Fundo Amapá, iniciativa realizada em 2015 pelo Instituto para apoiar projetos comunitários que incentivem o desenvolvimento de agriculturas sustentáveis de base agroecológica e agroextrativista, com financiamento de até 10 mil reais.

Hoje, a líder comunitária e mais 20 pessoas da Floresta Nacional do Amapá estão resgatando suas origens ao desenvolver o “projeto andiroba”. Por meio do fundo Amapá e de um grupo de parceiros articulados pela Associação e pelo ICMBio, os comunitários puderam receber capacitações em boas práticas e beneficiamento da semente do vegetal. “O Fundo começou agora, mas já ajudou a gente a resgatar uma cultura esquecida. Hoje nós estamos lá produzindo sabonete, pomada, óleos da andiroba e, além disso, descobrimos o pracaxi e a fava, outros vegetais que podemos beneficiar”, ressaltou. A comunitária ainda conclui: “Tínhamos riquezas e nossas raízes culturais em nosso quintal, mas não sabíamos”.

 

 

Segurança Alimentar

Lenice Bezerra, agricultora e associada da Casa Familiar Rural de São Félix do Xingu, entende bem as descobertas de Arlete. Moradora de um dos municípios mais desmatados do Pará [com 17 mil quilômetros quadrados de desflorestamento até 2014, segundo o Instituto de Pesquisas Espaciais- INPE], viu no Fundo Xingu Ambiente Sustentável, executado pelo IEB, uma oportunidade de realizar um sonho antigo: a apicultura (criação de abelhas).  A comunitária descobriu na época que a prática produtiva também contribuía para minimizar as problemáticas socioambientais da sua região. “Enquanto estou desenvolvendo a apicultura deixo de executar outras atividades que poderiam estar gerando o desmatamento”, assegura.

A comunitária participou do Fundo Xingu Ambiente Sustentável por dois anos (2013-2014), a iniciativa foi semelhante a atualmente desenvolvida no Amapá, resguardando as peculiaridades de cada território. Entretanto, o fato do fundo gerido pelo IEB ter finalizado suas atividades no município, não significou o término dos projetos desenvolvidos por ele. “O fundo terminou, mas o meu projeto não. E o maior ganho que tive com ele foi a segurança alimentar, ou seja, a  melhoria da minha alimentação e da minha família”, afirma a comunitária.

Produção sustentável

Lenice fez parte do grupo de 40 comunitários [do Marajó, São Félix do Xingu e Amapá ] que participaram do intercâmbio entre fundos socioambientais, ocorrido 23 a 26 de setembro na gleba Acutipereira. A comunidade visitada foi a Santo Ezequiel Moreno, tida como referência de sustentabilidade no Marajó. Além de uma forte organização comunitária, a comunidade se destaca em práticas  como piscicultura, manejo do açaí nativo e produção de hortaliças desenvolvidas concomitantemente pelos comunitários, numa clara estratégia de diversificação produtiva.

 “O fundo comunitário existe desde 2010 e é autogerido pela comunidade, resolvemos criá-lo para tentarmos melhorar a infraestrutura da nossa comunidade. Desde então, a cada rasa de açaí produzida separamos 1 real para a nossa comunidade. Com isso já conseguimos construir uma agroindústria, uma sede comunitária e uma ponte de 600 metros que facilita o nosso transporte”,  explica Odivan Correia, líder comunitário da gleba Acutipereira. Os ganhos não foram só sociais, mas também ambientais como complementa Odivan. “Antes cortávamos o açaizeiro para vender o palmito e hoje em dia trabalhamos com o manejo dele, desta forma estamos gerando menos impacto na natureza”.

Agroecologia

Resgate cultural, segurança alimentar, produção sustentável, são alguns dos pilares da agroecologia. Segundo Tatiana Sá, participante do CBA e pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), tais pilares são praticados há séculos por comunidades tradicionais amazônicas e de outras regiões.  A pesquisadora ainda afirma que a agroecologia é bastante abrangente e perpassa desde a produção consciente até a organização política de comunitários em prol de melhorias socioambientais.

Uma das ferramentas para disseminação dessa prática na Amazônia são intercâmbios comunitários, semelhante ao desenvolvido pelo IEB. A atividade permite a troca de saberes entre diferentes atores sociais. “Essa troca é uma das premissas da agroecologia, o intercâmbio é fundamental para inspirar os comunitários a conhecer a atividade prática e adaptá-la aos seus territórios.”, ressaltou Manuel Amaral, coordenador regional do IEB Belém.

Para os participantes, a oficina e o intercâmbio cumpriram o seu papel. Lenice voltou para casa motivada a colocar o que aprendeu em prática. “Eu aprendi com a comunidade Santo Ezequiel Moreno sobre organização e união. Foi uma experiência muito relevante pra mim, pretendo levar o que aprendi para minha comunidade”, disse a comunitária de São Félix do Xingu. Arlete, comunitária do Amapá, ressaltou a importância de socializar as experiências dos fundos socioambientais na oficina do IEB no CBA. “Esse foi um momento único, pude observar que a agroecologia não se restringe a produção e consumo. Fiquei feliz ao ver que aqui a troca sobre os fundos socioambientais de fato aconteceu”.

Segundo Manuel Amaral, a oficina no CBA também resultou em encaminhamentos proveitosos. “Tivemos como proposta a articulação com fundos desenvolvidos por institutos que executam atividades semelhantes às do IEB. A articulação permitirá amadurecermos conjuntamente nossas reflexões para a disseminação de nossas próximas práticas”.

O coordenador ainda apontou a construção coletiva de saberes como diferencial da atividade. “Com a oficina tivemos a oportunidade de não só aprendermos com outros, mas propagar as nossas práticas junto aos comunitários e construirmos coletivamente”. Os participantes do evento finalizaram a atividade com a clara percepção de que na agroecologia não há predileção de conhecimentos e que a máxima de Paulo Freire se torna real nesse campo: “Não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes”. 







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