Mulheres marajoaras discutem políticas públicas

Atuação sociopolítica e economia solidária foram temas de debate

“Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”, seguido de brados e palmas, Rafaela Trindade, expositora do projeto Ceci-Mulher do Banco Comunitário Tupinambá e uma das participantes da Oficina de políticas públicas para mulheres, fez deste trecho da canção de Geraldo Vandré uma aclamação para que as marajoaras lutem pelos seus direitos. As 25 mulheres participantes da oficina, vindas de dez municípios do Marajó, não só ouviram esse chamado, mas fizeram das lutas, bandeiras e das ações compartilhadas a esperança de um futuro melhor.

O encontro aconteceu de 20 a 22 de julho na Ilha de Mosqueiro, distrito de Belém (PA). “Economia Solidária, Políticas Públicas e Igualdade de Gênero: Desafios e perspectivas para as mulheres marajoaras” foi o tema do evento. A atividade discutiu  políticas públicas voltadas para as mulheres e promoveu o fortalecimento de práticas socioprodutivas oriundas da economia solidária. A iniciativa foi realizada pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), no âmbito do projeto Embarca Marajó, que possui apoio financeiro do Fundo Socioambiental da Caixa e Fundo Vale.

Mulher marajoara

O sol ainda nem havia despertado, mas Rita Nascimento já estava de pé. A marajoara da comunidade Santa Rita, na Reserva Extrativista Mapuá, no município de Breves, acordou ainda na madrugada do dia 18 para ir à oficina em Mosqueiro. Dentre os múltiplos papeis de Rita está o de mãe, mas isso não a impede de exercer com excelência o papel de liderança. Por isso, a comunitária embarcou em uma viagem de quase dois dias até a capital paraense, trazendo consigo vivências para serem compartilhadas e a filha de oito anos no colo.

Rita afirma que desde a criação da Resex Mapuá, em 2006, tinha o sonho de trabalhar a frente de um grupo de mulheres, visto que o gênero tinha poucas oportunidades. O sonho começou a se tornar realidade em 2011, quando motivada pela então gestora da Resex (representante do ICMBio) participou da primeira capacitação de encauchado de vegetais, uma técnica de impermeabilização do látex. Após o evento, Rita levou os educadores para capacitarem as mulheres de sua comunidade, e a partir de então surgiu o Grupo de Mulheres da Resex Mapuá, que trabalha com a produção de artesanato local.

Atualmente, a comunitária afirma que a iniciativa vem crescendo e que a renda das mulheres aumentou. Tudo o que é vendido é dividido entre elas. Rita percorre várias comunidades fazendo palestras sobre os direitos e deveres da mulher e sobre o que devem fazer para se organizar. Ela é categórica quanto a contribuição da oficina: “Conhecimento! Quero chegar na Resex e compartilhar o que aprendi para que as mulheres se articulem”, comenta.

A iniciativa na Resex Mapuá ainda não é regra, mas exceção no vasto território marajoara. A organização e articulação de mulheres ainda é tímida e com o esforço característico de tantas Ritas, Marias, Anas ... ou seja, mulheres marajoaras que tem tentado vencer a repressão histórica do gênero feminino no território.


Retrato social
“No período pré-colonização, nas tribos amazônicas homens e mulheres possuíam papéis reconhecidos, mas após o sistema agrário colonial da borracha, o papel da mulher amazônica passou a ser diminuído pelos colonizadores europeus, e o machismo se fez presente em nosso território”, afirma o consultor de projetos, Carlos Ramos.

Hoje, mais de 200 mil mulheres residem no arquipélago amazônico do Marajó, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dorivalda Alves, comunitária de Portel e vice-presidente da Associação de Moradores da Gleba Acuti Pereira (Asmoga), explica que a realidade vivida pela mulher marajoara esbarra em obstáculos diariamente, o machismo continua a ser um agravante e a falta de políticas públicas repercute no dia-a-dia. “A violência contra mulher é grande, além disso, não temos muitas oportunidades. Não podemos colocar nossos filhos no colégio, porque falta educação, não podemos ter uma vida melhor, porque a renda é baixa e não podemos nem adoecer, porque também falta saúde”, lamenta Dorivalda, moradora de um dos seis municípios com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país.

A coordenadora técnica da Associação dos Municípios do Arquipélago do Marajó (Amam), Marília Tavares, assegura que apesar das dificuldades enfrentadas, as mulheres marajoaras já possuem conquistas. “Uma delas aconteceu no Fórum Permanente de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres do Campo. Nele estabelecemos uma comissão de monitoramento das ações no arquipélago do Marajó, composta pelo Ministério Público, Colegiado de Desenvolvimento do Território Marajoara (Codetem), Amam, dentre outros representantes de órgãos públicos e da sociedade civil. Mas, sabemos que ainda há muito pelo que lutar”, declara.

Economia
A oficina em mosqueiro é uma ação do projeto Embarca Marajó, realizado pelo IEB, Instituto Vitória Régia (IVR) e Peabiru. Seu objetivo é implementar ações socioeconômicas e ambientais, visando o desenvolvimento sustentável do território marajoara, especialmente nos municípios onde trafega a Agência- Barco da Caixa.

A atuação junto às mulheres no território é vista como prioridade, no âmbito das ações do projeto, avalia a coordenadora de projetos do IEB, Raimunda Rodrigues. “Vimos a necessidade de fortalecer as discussões já existentes sobre o empoderamento sociopolítico da mulher marajoara na defesa dos seus direitos, articulando às práticas econômicas socioprodutivas na perspectiva da economia solidária”, explica Rodrigues sobre a motivação do evento.

Além de identificar as problemáticas e demandas apontadas pelas mulheres marajoaras - como a necessidade de delegacias para mulheres, saúde preventiva feminina e políticas voltadas para a melhoria da qualidade de vida e geração de renda - a oficina debateu a economia solidária como alternativa produtiva sustentável, por meio da troca de experiências bem sucedidas na área. A modalidade econômica é uma forma de produção, consumo e exploração de riquezas centrada na valorização do ser humano e na colaboração; e não no capital ou na concorrência.

Rosevany Mendonça, coordenadora Pedagógica dos projetos do IVR, explica que muitas mulheres no Marajó, semelhantes a Rita, desenvolvem a economia solidária e não sabem. O simples fato de produzirem algo em conjunto e comercializarem já pode ser considerado como a mencionada modalidade econômica. “Hoje estão sendo implantadas pelo governo federal políticas públicas dentro dos princípios da economia solidaria voltadas para o protagonismo feminino, por isso precisamos capacitar as mulheres para esta prática”, ressalta Mendonça.

Bancos
Antes da oficina, entre os dias 17 a 22 de julho, o IVR desenvolveu um intercâmbio de experiências entre Bancos Comunitários (BCs) implantados pelo Embarca Marajó e o Banco Comunitário Tupinambá, em Mosqueiro. “Ao unir a oficia com o intercambio buscamos capacitar as mulheres para que a gestão dos bancos seja executada por elas, tendo em vista que os projetos sociais desenvolvidos por quase todos os BCs são voltados para o empoderamento e fortalecimento feminino”, explica Rosevany.

Para a comunitária de Muaná/PA, Ana Valquíria Teixeira, participante de ambas as atividades, a experiência foi positiva. “Conheci de perto os benefícios da economia solidária, como por exemplo, o fortalecimento da economia local. Pretendo aplicar todos os conceitos que aprendi aqui em minha comunidade”, afirma a jovem que atuará em um dos dois bancos comunitários a serem implementados pelo IVR em Muaná e Curralinho, duas ações do projeto que já estão em andamento.

A representante do Fundo Socioambiental Caixa, Alice Aciolli, ressalta que apesar das mulheres fazerem parte de um mesmo arquipélago moram distante umas das outras e as atividades são uma oportunidade de interação. “Elas estão aprendendo umas com as outras. Aqui elas descobrem que as experiências positivas de umas podem ser replicadas nas comunidades das outras. Esse é um dos grandes diferenciais dessa iniciativa”, relatou.

“Dentre todas as lições que tirei desse encontro, saio daqui sabendo que eu posso ser protagonista da minha história e que não existe território pobre que não possa se desenvolver economicamente. Acredito que nós podemos fazer isso!”, conclui Tamires Cruz, comunitária de Salvaterra e presidente da Cooperativa dos Produtores Extrativistas Marinhos e Florestais da Ilha de Marajó (Coopemaflima).







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