Mundo em transformação

Indígenas de Roraima refletem sobre mudanças climáticas em livro organizado pelo CIR

O que pensam os indígenas sobre mudanças climáticas? É que tenta responder o livro Amazad Pana’adinhan: percepções das comunidades indígenas sobre as mudanças climáticas, lançado em Brasília no dia último dia 15. O trabalho é resultado de uma pesquisa de três anos na Região Serra da Lua, em Roraima, que envolveu três terras indígenas: Jacamim, Malacacheta e Manoá-Pium.

Organizado por Sineia Bezerra do Vale, Coordenadora do Departamento Ambiental e Territorial do Conselho Indígena de Roraima (CIR) e pelo antropólogo Alessandro Roberto de Oliveira a partir da pesquisa de campo de 18 agentes ambientais e territoriais indígenas (ATAIs) e três professores indígenas que orientaram o projeto, o trabalho identificou a percepção das comunidades de que nas últimas décadas os ciclos anuais, os tempos de verão e inverno, estão ocorrendo de maneira diferente daquela que os mais velhos relatam que costumava ser.

“Eventos climáticos extremos, como uma seca prolongada ou uma enchente sempre ocorreram, segundo os relatos, o problema é que estes acontecimentos estão aparecendo com um intervalo menor e com maior frequência. O que mais afeta a região em termos de mudanças climáticas são essas alterações bruscas. Os principais impactos são a perda de roças, a diminuição da caça, da pesca e dos produtos extraídos da mata, como o açaí, a bacaba, o buriti, a castanha. Além destes impactos nas atividades tradicionais de manejo e uso de recursos naturais, as mudanças do clima também afetam a habitação, a mobilidade e a saúde das comunidades indígenas”, explicou Alessandro Roberto de Oliveira.

Foram feitas mais de 90 entrevistas com pajés, caçadores, pescadores, agricultores e parteiras. Os agentes perguntaram sobre as mudanças percebidas nos últimos 20 anos que afetam a agricultura, caça, pesca e o extrativismo da região. Eles trabalharam na produção de mapas mentais das comunidades e calendários ecológicos, mostrando o que acontece a cada mês na interação entre as comunidades e seus ambientes. A rotina das mulheres mereceu destaque especial na pesquisa, dado o envolvimento delas com várias atividades que têm a ver com essa interação.

Um dos resultados da pesquisa foi a construção do plano regional de enfrentamento às mudanças climáticas na região da Serra da Lua com propostas de ação. O grande desafio para a implementação do plano é a busca por parcerias. “Algumas ações previstas no plano estão sendo e serão colocadas em prática pelas próprias comunidades, como, por exemplo, estabelecer consensos em relação ao tamanho das queimas para fazer as roças e definir áreas dentro das terras indígenas que devem ser conservadas. Mas outras ações demandam parcerias, sobretudo com órgãos públicos responsáveis por determinadas áreas, como a manutenção e conservação de estradas, que nas grandes enchentes cada vez mais frequentes deixam comunidades isoladas ou dificultam muito o transporte escolar”, avaliou Alessandro Roberto de Oliveira.







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