Nota de pesar

O IEB (Instituto Internacional de Educação do Brasil) se junta as incontáveis manifestações de pesar pela partida prematura de Juliana Santilli, no dia 18 de novembro de 2015
Juliana Santilli, segunda a partir da esquerda, na ocasião do lançamento do livro A Diversidade cabe na Unidade? Áreas protegidas no Brasil, em Brasília, em novembro de 2014, ao lado dos demais autores.
Juliana Santilli, segunda a partir da esquerda, na ocasião do lançamento do livro A Diversidade cabe na Unidade? Áreas protegidas no Brasil, em Brasília, em novembro de 2014, ao lado dos demais autores.

Juliana esteve no sertão e nunca mais se foi [...].

Juliana esteve na aldeia e nunca mais se foi.

Juliana esteve na floresta e nunca mais se foi.

Juliana esteve onde esteve e ficou para sempre.

(Trecho da mensagem lida por ocasião da despedida de Juliana Ferraz da Rocha Santilli)

 

O IEB (Instituto Internacional de Educação do Brasil) se junta as incontáveis manifestações de pesar pela partida prematura de Juliana Santilli, no dia 18 de novembro de 2015.

Ju, como carinhosamente a chamávamos, além de sócia fundadora do ISA (Instituto Socioambiental) era sócia do IEB desde 2004 e foi professora nos cursos de Aperfeiçoamento em Direito Ambiental e em Política Ambiental, periodicamente oferecidos pelo IEB. Como sócia do IEB, sempre contribuiu com suas posições ao mesmo tempo firmes e delicadas para a definição dos rumos da instituição. Já nos cursos sempre colaborou abordando com desenvoltura, erudição e sistematicidade os temas que dominava amplamente – em especial, os instrumentos jurídicos nacionais e internacionais de proteção aos conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade e ao patrimônio genético. Suas participações como professora nos cursos do IEB foram traduzidas em artigos nas coletâneas editadas pelo Instituto a partir dos dois cursos referidos – Direito Ambiental e Política Ambiental.

Ju foi pioneira em mostrar, a partir do campo do Direito e da sua aguda sensibilidade antropológica e epistemológica, que patrimônios genético e cultural são indissociáveis nos sistemas agrícolas de povos indígenas e comunidades tradicionais e camponesas. Essa era uma das mensagens centrais que Ju generosamente oferecia para jovens advogados, procuradores e magistrados em busca de ampliar os seus horizontes e renovar as concepções muitas vezes tacanhas que traziam de sua formação convencional – o que ajuda a entender a admiração que nutrem por ela os que passaram por suas aulas.

Por identificarmos nas formulações de Ju contribuições doutrinárias de fronteira no campo do Direito, ao infundir neste os conceitos, valores e paradigmas do socioambientalismo, e incorporar as referências teóricas do multiculturalismo e do pluralismo, o IEB associou-se ao ISA na publicação do livro resultante da dissertação de mestrado dela em Direito pela UnB: Socioambientalismo e Novos Direitos: proteção jurídica à diversidade biológica e cultural (2005) – que logo se tornou referência central para os que trabalhavam com o tema (fossem pesquisadores, advogados, ativistas e militantes, fossem os próprios representantes de comunidades tradicionais e movimentos sociais – com os quais Ju interagia horizontalmente, como se fosse desses universos).

Quatro anos depois, publicamos a sua tese de doutorado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR): Agrobiodiversidade e Direitos dos Agricultores (2009). A publicação de um trabalho tão próximo um do outro e a conclusão do doutorado logo cinco anos após o mestrado, enquanto já exercia a sua função de Promotora de Justiça do Ministério Público Federal do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), revela um traço característico de Ju: a sua enorme capacidade de trabalho e realização, que se desdobrou na oferta de cursos livres em várias regiões de país, ao longo dos últimos 15 anos. Por meio destes, formou uma geração de profissionais da área do Direito, Agronomia, Ciência Sociais, Engenharia Florestal e outras, para, entre outras coisas, reconhecer “os valores incomensuráveis que se escondem no germe de uma semente” e “trilhar os caminhos inseguros, pantanosos, onde os direitos dos agricultores se chocavam com os poderosos interesses das corporações” – para usar os termos de Carlos Alberto Dayrell (Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas/CAA-NM) em seu tocante obituário.

Ju atuava e investia em todas essas frentes com muito compromisso e afeto, mas também com uma leveza que beirava o alheamento. Era motivo de brincadeira e diversão entre amigo/as próximo/as seu jeitão meio aéreo e desligado, e o modo como ela volta e meia saía abruptamente desse aparente alheamento com alguma interrogação exclamativa (“Sério?!”), um meneio de face e cabelos, e os olhos bem abertos.

Acompanhamos apreensivos os pouco mais de dois meses ao longo dos quais Ju lutou contra um acidente vascular cerebral que a abateu no Cine Pireneus, em Pirenópolis/GO, quando participava do 6º Slow Filme: Festival Internacional de Cinema e Alimentação, em meados de setembro – uma atividade destinada à valorização da produção orgânica com certificação de origem (algo em que ela sempre acreditou e investiu).

O legado de Ju permanece como as sementes que tanto valorizava, gerando frutos entre os vários grupos e segmentos pelos quais circulou. Nossa solidariedade a Márcio e Lucas, e aos familiares, amigos e colegas de trabalho, que tanto sentirão sua falta, quanto cultivarão o seu legado.







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