Seminário discute manejo comunitário em UCs

Evento foi realizado no Marajó, uma das fontes de madeira ilegal no Pará

De Melgaço, Oeiras e vários outros munícipios do arquipélago paraense despontavam barcos, balsas e navios, que fizeram dos rios a “estrada” para o porto de Breves. Em meio ao desembarque apressado na cidade, alguns dos passageiros relatavam o mesmo propósito, a participação no Seminário do Manejo Florestal Comunitário (MFC) em Unidades de Conservação (UCs) de Uso Sustentável do Marajó. O evento foi realizado nos dias 5 e 6 de novembro, na Universidade Aberta do Brasil, com organização de um Grupo Trabalho formado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), Instituto Floresta Tropical (IFT), Empresa de Assistência Técnica, Extensão Rural (Emater) e Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio)e o Instituto Federal do Pará.

Hora de aprender

Emocionado, Benedito Charles conclamou o auditório lotado de extrativistas a entenderem o proposito do evento. “É agora a hora de aprender sobre o Manejo florestal Comunitário. Se tiver dúvidas, pergunte, mas não saiam sem esclarecimento daqui”, disse o presidente da Associação dos Moradores de Mapuá, para um público de cerca de 200 pessoas.

A solicitação foi atendida. Durante dois dias falou-se do manejo em unidades de conservação de uso sustentável, o passo a passo do licenciamento e as experiências bem sucedidas de empreendimentos comunitários, tais como o manejo florestal na Reserva Extrativista Ituxi, no Amazonas, e o trabalho da Cooperativa Mista da Floresta Nacional do Tapajós (Coomflona), única cooperativa paraense com certificação FSC.

O MFC é considerado um das formas para realizar a governança florestal no território marajoara, explica a assistente de projetos do IEB, Loyanne Feitosa. “Ele [MFC] possibilita que as comunidades tenham controle social sobre a gestão dos seus territórios, garantindo a geração de renda para as famílias a partir do uso sustentável dos recursos naturais”, ressalta.

Vulnerabilidade

Mas, o encontro também levantou os desafios do arquipélago. Grupos de trabalho apresentaram as demandas e as expectativas em torno das instituições que atuam na região. As informações foram adicionadas a um plano de ação, com o intuito de fomentar o MFC nas UCs do Marajó, consideradas vulneráveis tanto quanto outras áreas protegidas no Brasil.

Estudos do Greenpeace indicam que entre 2007 a 2013, 30% das áreas afetadas pela degradação florestal no país estavam localizadas em regiões de Terras Indígenas e Unidades de Conservação. Esse padrão de perda da floresta é característico da exploração madeireira ilegal. Segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente (IMAZON), o Marajó é uma das áreas mais recorrentes de exploração florestal não autorizada no estado, chegando a possuir 17% da madeira ilegal no território paraense.

 “Os madeireiros entram na nossa Resex, enchem as embarcações de madeira ilegal e depois vão embora. Além disso, nos incentivam a continuarmos na prática da ilegalidade”, denuncia Benedito Charles. Um dos motivos dessa ocorrência é a pouca fiscalização e gestão das UCs. O descaso político de décadas e a impunidade permitem que a exploração ilegal ocorra livremente, deixando um rastro de destruição em áreas que deveriam ser protegidas.

Caminhos 

Durante o seminário foi assinado o Termo de Cooperação Técnica para oficializar a parceria entre a Emater e o ICMBio. O objetivo da parceria é fortalecer as ações junto a duas mil famílias das reservas extrativistas Mapuá, Terra Grande-Pracuúba e Arioca-Pruanã.

O coordenador regional do ICMBio, Fernando Peçanha, declarou que a fiscalização no território vai melhorar. “A vigilância nas reservas será ampliada”, afirmou.  O secretário de Meio Ambiente de Breves, Sidicley Miranda, também comentou o propósito de mudar o contexto problemático local. “Vamos melhorar a supervisão na região em 2015, após a recente aquisição de um carro, uma voadeira e uma lancha”, assegurou o secretário de um município com cerca 800 serrarias, segundo dados fornecidos por ele.

Loyanne acredita em um caminho alternativo que vai além da fiscalização. “Ao facilitar o diálogo entre comunidades e entidades responsáveis pela regularização fundiária e ambiental incentivamos a capacidade da gestão comunitária sobre seus territórios, fator que diminui a ilegalidade” destaca Feitosa que, através do IEB, está à frente de um projeto cujo objetivo é a capacitação de atores locais para fortalecer o MFC no Marajó.   

Mensagem

Para o extrativista Sebastião Silva, da Resex Arioca Pruanã, às 18 horas de viagem até Breves valeram a pena pelo aprendizado. “Eu vi que o manejo é muito importante. Através dele posso conservar a floresta para os meus filhos e meus netos”, declarou. Diante de depoimentos semelhantes ao de Sebastião, os representantes das instituições organizadoras do encontro avaliaram positivamente o seminário. “Um evento desse porte sobre MFC em UCs no Marajó é algo inédito”, afirmou Ana Violato, do Instituto Floresta Tropical. “Mostramos aos comunitários que a realização do MFC não é uma realidade distante”, comentou a coordenadora de projetos do IEB, Wandreia Baitz que teve seu ponto de vista reforçado pelo ex-presidente da Coomflona, Sérgio Pimentel. “A nossa principal mensagem sobre o MFC é uma só: É possível!”, finalizou. 







Comentários